Quarto e último álbum dos Smiths, lançado em setembro de 1987, tornou-se um documento final de uma das bandas mais importantes e singulares do rock britânico dos anos 1980.
O quarto e último álbum dos The Smiths, Strangeways, Here We Come, chegou às prateleiras em setembro de 1987, quando a banda já havia encerrado suas atividades. Com o fim do grupo, o mundo perdeu a oportunidade de acompanhar uma possível turnê de despedida de uma das formações mais marcantes surgidas dos cenários multiculturais de Manchester e Salford.
O disco acabou se tornando não apenas o encerramento da trajetória dos Smiths, mas também uma espécie de documento final de uma banda que, em poucos anos, construiu uma identidade própria e influente no rock britânico.
Um álbum além da própria fórmula
Apesar das tensões nos bastidores, que culminaram na saída do guitarrista Johnny Marr semanas antes do lançamento, Strangeways, Here We Come mostra um grupo disposto a explorar novas possibilidades musicais.
Marr amplia seu repertório de timbres, arranjos e texturas, enquanto Morrissey apresenta algumas de suas letras mais dramáticas, irônicas e melancólicas.
Curiosamente, os quatro integrantes — Morrissey, Johnny Marr, Andy Rourke e Mike Joyce — já declararam, em diferentes entrevistas, considerar Strangeways, Here We Come o melhor álbum dos Smiths.
A afirmação ganha relevância diante da trajetória da banda, que lançou apenas quatro álbuns de estúdio e, ainda assim, construiu uma sonoridade e uma identidade que continuam sendo reconhecidas por diferentes gerações.
O significado de “Strangeways”
O próprio título do álbum possui uma forte ligação com Manchester. Strangeways é uma referência à famosa prisão da cidade, atualmente conhecida oficialmente como HMP Manchester.
A prisão acabou incorporada ao imaginário cultural de Manchester e também à história musical da região, especialmente em meio à cena alternativa e boêmia que ganhou força no final dos anos 1980.
Entre os artistas associados a esse universo estão Shaun Ryder e Bez, integrantes do Happy Mondays, nomes importantes da efervescente cena musical de Manchester.
Uma capa marcada pelo cinema
A capa de Strangeways, Here We Come apresenta um retrato desfocado e melancólico do ator Richard Davalos, fotografado durante as filmagens de Vidas Amargas (East of Eden).
Na imagem, Davalos aparece olhando para James Dean, seu colega de elenco. O registro transmite uma sensação de distância e contemplação que combina com a atmosfera do álbum: melancólica, cinematográfica e misteriosa.
Também existem histórias populares que relacionam James Dean ao imaginário de Strangeways e de Manchester. Algumas dessas associações, porém, são difíceis de comprovar documentalmente. O que permanece é a força simbólica que o nome Strangeways adquiriu dentro da cultura da cidade.
Faixas que marcaram o último capítulo
O álbum começa com “Rush and a Push and the Land Is Ours”, uma escolha pouco convencional para abrir o último trabalho dos Smiths. A faixa chama atenção por não colocar a guitarra como elemento central do arranjo.
Na sequência aparecem “I Started Something I Couldn't Finish”, de característica energética e pop; “Death of a Disco Dancer”, com atmosfera mais sombria; e “Girlfriend in a Coma”, uma das músicas mais conhecidas do grupo, combinando melodia pop, humor negro e uma letra desconcertante.
Em “Stop Me If You Think You've Heard This One Before”, Johnny Marr apresenta uma das melodias mais marcantes do disco, enquanto Morrissey trabalha temas relacionados à repetição, desilusão e exagero.
Já “Last Night I Dreamt That Somebody Loved Me” aparece entre os momentos mais dramáticos do álbum. Sua introdução cria uma atmosfera quase cinematográfica antes da interpretação de Morrissey, marcada por vulnerabilidade e melancolia.
O lado irônico surge em “Unhappy Birthday”, enquanto “Paint a Vulgar Picture” aborda questões relacionadas à indústria musical, exploração comercial, memória e transformação de uma obra artística em produto.
“Death at One's Elbow” é curta, nervosa e explosiva, criando contraste com a faixa que encerra o álbum.
A última música
“I Won't Share You” fecha Strangeways, Here We Come com uma atmosfera delicada e mais íntima.
Sabendo que aquela seria a última faixa de um álbum de estúdio dos Smiths, a música ganha um significado ainda mais particular. A banda já não existia quando o disco chegou ao público, transformando a obra em seu capítulo final.
Todas as faixas foram compostas por Steven Morrissey e Johnny Marr, parceria responsável por grande parte da identidade musical dos Smiths. A combinação entre as guitarras de Marr e as letras e interpretações de Morrissey encontrou no álbum uma de suas formas mais maduras.
Faixas do álbum
Rush and a Push and the Land Is Ours
I Started Something I Couldn't Finish
Death of a Disco Dancer
Girlfriend in a Coma
Stop Me If You Think You've Heard This One Before
Last Night I Dreamt That Somebody Loved Me
Unhappy Birthday
Paint a Vulgar Picture
Death at One's Elbow
I Won't Share You
Uma despedida que não parece despedida
Strangeways, Here We Come é, acima de tudo, um disco de despedida que não soa exatamente como uma despedida.
O álbum reúne energia, experimentação, humor, melancolia e melodias marcantes, mostrando uma banda que, mesmo chegando ao fim, parecia musicalmente preparada para iniciar uma nova fase.
Os Smiths vieram dos cenários musicais de Manchester e Salford, transformaram angústias, ironias e melodias em uma identidade própria e encerraram sua trajetória deixando quatro álbuns de estúdio que continuam atravessando gerações.
Strangeways, Here We Come foi o último deles. E talvez seja justamente por isso que o disco carregue, até hoje, a sensação de que alguma coisa ficou inacabada.
Por Léo Siqueira
Confraria do Rock
Por Léo Siqueira | Confraria do Rock
